
De autoria do deputado estadual Delegado Péricles, um projeto de lei propõe conceder o Título de Cidadão do Amazonas ao senador Flávio Nantes Bolsonaro. Não é um ato administrativo qualquer. É um ritual antigo da Assembleia, reservado àqueles que, segundo o entendimento do Parlamento, deixaram marcas no estado — ainda que essas marcas, às vezes, caibam em poucos dias de agenda oficial.
O texto é objetivo, como toda lei costuma ser. Aponta o autor, o homenageado e o rito final: uma sessão especial, marcada pela Mesa Diretora, desde que a maioria dos deputados concorde. Tudo muito formal, tudo muito correto.
Por trás dessas linhas secas, porém, mora o simbolismo. O título não concede poder, não cria vínculo legal, não altera currículos políticos. Ele funciona como um gesto público de reconhecimento. É o Amazonas dizendo, em documento oficial, “você é um dos nossos”.
E aqui surge a ironia silenciosa do processo. Entre os argumentos que sustentam a proposta está uma visita do senador ao estado, em setembro de 2020, quando participou do lançamento de um programa de retomada do turismo. Uma passagem registrada, algumas falas sobre potencial da região, fotos, discursos e o retorno ao eixo Brasília–Rio. O suficiente, ao que tudo indica, para preencher os requisitos simbólicos de pertencimento.
No fim, mais do que um nome, o que estará em votação é o critério. E a velha pergunta que acompanha esse tipo de homenagem: afinal, o que significa, hoje, “ter deixado marcas” no Amazonas?
