
Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade, o advogado Marcelo Amil é um dos nomes que compõem a federação Psol/Rede e que deve participar direta ou indiretamente das eleições 2024 na capital amazonense. Amil já tem um histórico de participar de pleitos eleitorais em Manaus seguindo a métrica ideológica da esquerda.
Em entrevista ao Comun, o político fez uma análise da atuação dos parlamentares amazonenses nas Casas Legislativas, falou sobre a situação atual da esquerda no Amazonas e de como esta tem se comportado em relação aos preparativos para as eleições 2024. Marcelo Amil conta detalhes do conflito que o retirou do pleito de 2022 e adianta que o Psol AM enfrenta o despreparo de dirigentes para as próximas eleições.
Confira a entrevista:
COMUN – Qual foi o seu ponto de partida para ingressar na política?
O ponto de partida foi movimento estudantil. No ensino médio, a minha escola era muito ruim estruturalmente, a gente tinha muitos problemas estruturais. Então, a gente decidiu, dentro de um bando de meninos de 17 ou 18 anos, que a gente precisava ser organizado para fazer cobranças. Daí veio o movimento na escola, que na época não era nem institucional. Como a gente conseguiu vitórias, aí nós nos organizamos e institucionalmente divulgamos entre os estudantes. Daí eu fui para a União Municipal de Estudantes, fiz militância partidária por alguns anos, fiz assessoria parlamentar, fui presidente do PPS, secretário nacional de comunicação do grupo, e aí depois dei uma parada para a vida, para terminar a faculdade, para criar meus filhos, para trabalhar. E aí, em 2017, a vida já estava estabilizada, já estava mais tranquila, aí a gente voltou. Resolvi voltar para efetivamente disputar uma eleição. Fiz uma pré-campanha pro Senado, tomei uma pernada, acabei saindo, aí lancei uma pré-campanha pro governo, que acabou que por um pedido da direção nacional do partido. Saí candidato a deputado federal, depois fui nomeado presidente do partido no Amazonas (PMN) e daí foi seguindo em frente. O próprio PMN, que eu fui convidado a assumir a presidência, o convite veio do Congresso em São Paulo. Eu não era membro no Congresso, eu não era presidente do Partido e o presidente da nacional me ligou pessoalmente e me convidou para ir para o Congresso. Eu busquei o Estatuto do PMN, que diz que o Partido é um Partido Socialista. Ele me convidou para fazer o Partido voltar ser de esquerda. Então, fizemos um baita trabalho e conseguimos reunir, pela primeira vez em 20 anos, todas as presidências de PT, PSDB, PSOL, PSD1, PSDB, PT, PSD, no PMN. Há 20 anos, esse Partido não se reunia com outras siglas e foi eu que consegui botar todo mundo na mesma mesa. Aí, de repente, por razões espúrias, eu fui alijado da presidência.
COMUN – Como avalia hoje o cenário da esquerda no Amazonas?
Eu faço inclusive essa crítica para os dirigentes dos nossos partidos de esquerda. A gente precisa focar mais nas convergências e menos nas divergências. Hoje a gente tem pessoas de esquerda ocupando pontos centrais do governo. A gente tem o governo de Wilson Lima, que não é um governo de esquerda, mas nós temos o Serafim Correia, ocupando um cargo estratégico lá. Nós temos bancadas minúsculas, nós temos apenas um deputado estadual de um partido de esquerda, que é o Sinésio Campos, e apenas dois vereadores, na Câmara Municipal de Manaus, de partidos de esquerda, que são o Sassá da Construção Civil e o Jaildo. Só que o Jaildo ele é muito da base, e o governo David Almeida está longe de um governo de esquerda. Ou seja, nós nos apequenamos, a gente teve uma esquerda no Amazonas que tinha, na Câmara, a Vanessa Grazziotin, o próprio Robélio Braga, que tinha uma postura mais progressista, Jefferson Pérez, de senador pelo PDT. Então, a gente já teve um momento de debate intelectual muito forte no Amazonas, capitaneado pela esquerda. Infelizmente, a gente perdeu isso no passar dos anos. Por exemplo, nós tivemos uma perda muito grande pra gente dentro do Amazonas que foi não renovar o mandato da Vanessa como senadora e depois não eleger ela deputada federal. E aí nós perdemos também o Zé Ricardo agora em 2022. Então, o cenário é muito difícil. E se a gente não conseguir focar nas convergências, afastando as divergências e caminhar junto, infelizmente a gente vai pra mais uma eleição onde a gente vai ser esmagado por outro campo de pensamento.
COMUN – O que ocorreu em 2022 quando você ia se candidatar pelo Psol e a candidatura não deu certo?
O que o aconteceu naquela eleição foi que o Tuyuka estava no lugar certo na hora certa. Tivemos uma articulação interna entre tendências, o que é natural em todo partido, onde foi definido por uma unanimidade que eu disputaria a eleição naquele pleito. Porém, a minoria aqui no Estado, que não queria que eu disputasse, era maioria entre articuladores da nacional. A minoria conseguiu um afastamento meu e da presidente da legenda invalidando o processo que havia ocorrido aqui em Manaus. Cometeram ali violência política. Não contra, que até já sou acostumado, mas, até então, com a presidente da legenda aqui. Quando fomos afastados, que não tínhamos sido ouvidos, nem tínhamos uma suspensão de presidência, o comandante da nacional não ouviu da gente e nem perguntou “por que você está sendo denunciado?”, “qual é a sua defesa?” Nunca nos ouviram. Eles mandaram um cão de guarda, para fiscalizar a convenção da rede com o Psol para assegurar que a Rede/Psol iria obedecer o combinado entre eles. Uma violência jurídica com o pessoal, foi um desrespeito com a rede e essa foi uma briga político interna.
COMUN – Como foi esse conflito entre dirigentes?
Em 12 segundos deles, naquele dia, quando eles gentilmente perderam a votação, eles arrumaram essa confusão. Mentiram que foram agredidos, eles mentiram, eles mentiram… Está todo mundo sendo processado, a Fernanda Fernandes, que é uma mentirosa, está sendo processada. Todo mundo da confusão, está respondendo judicialmente. Ficamos sempre no campo comunicativo, ou no passo do campo comunicativo. Tem essas divergências que existem, e eu mantenho no campo comunicativo. Se alguém tem alguma coisa pessoal contra mim, tome um suco de maracujá.
COMUN – Pretende disputar algum cargo em 2024?
O meu nome tá sempre à disposição. Tô na disposição, tô fazendo estudos sobre a Prefeitura de Manaus. Meu objetivo é construir o nosso campo de pensamento. Bolsonaro foi derrotado, Bolsonaroismo ainda não. Então, pra gente combater isso, a gente precisa de todos os nossos quadros. Se pro nosso campo político for importante que eu seja candidato, eu tô à disposição. Se for importante que eu seja candidato a vereador, eu tô à disposição. Se for importante que eu não seja candidato, mas eu dirija alguma campanha, eu também tô à disposição. O projeto não é pessoal, o projeto é de construção de campo de pensamento da sociedade. Eu não diria colocar nas mãos deles, mas são momentos diferentes. Em 2020, ninguém sabia quem eu era. Hoje se você perguntar de mim se eu quero disputar um cargo para vereador eu vou dizer que não, mas eu sou de grupo se for decido outra estratégia eu não me furto.
COMUN – Psol tem estratégia para vereanças em 2024?
Nenhuma, nenhuma estratégia. Tem um monte de dirigentes com pouquíssimo preparo técnico. A atual presidente municipal do Psol, Dra Natália Demes. Ela não sabia nem que ela não era afiliada ao Psol em 2022, esse foi um dos motivos da briga lá. Então, o pessoal é pouco preparado e eu espero que eles tenham aprendido alguma coisa, né? Não acredito, mas espero que tenham.
COMUN – Como avalia o nosso parlamento hoje?
Na Assembleia Legislativa, eu acho lamentável que você não tenha oposição a uma parlamenta que deu uma medalha de Cidadã do Amazonas, a Michelle Bolsonaro, por exemplo. O que essa mulher fez pelo Amazonas? A família dela comemorou o momento que Wilson Lima, em 2020, não teve punho para fazer um lockdown, e isso levou a gente à crise do oxigênio. Eles querem dar um título de cidadão amazonense para essa mulher. Deram um título de cidadão amazonense para o Gilson, que era ministro do Bolsonaro. Se perguntar dele se dá para ir a pé de Barreirinha para Tabatinga, capaz dele dizer que dá. Não tem ideia do que seja o Amazonas. Então, no geral, fazendo um acompanhamento, eu acho que a gente já teve muito melhor de parlamento. Como eu falei, na Câmara de Manaus, que a gente já teve numa mesma legislatura, Vanessa Grazziontin, Robério Braga, Praciano, e hoje em dia, infelizmente, a gente teve recentemente uma votação em que a bancada do prefeito, e eu não estou defendendo a medida só estou comentando o fato, a bancada perdeu uma votação que interessava à Prefeitura porque não prestaram atenção na matéria que estava sendo discutida. Eu acho que isso é um sintoma grave, um sintoma notório, do que é o parlamento hoje em dia, e eu entendo que ele tem muito pra crescer.
COMUN – Como avalia as gestões governo e prefeitura?
Eu sempre falo que prefiro comer um um feijão com arroz bem feito do que um cassoulet Lemonnier ruim. E sobre Wilson eu preciso ser justo, não votei no Wilson em nenhuma das outras eleições. Não tenho aspiração de um dia votar nele, mas eu preciso reconhecer que ele tá fazendo um feijão com arroz adequado até certo ponto. Eu vou separar dessa leitura, esse momento das queimadas, porque ali eu entendo que o governo estatual tinha como agir, mas eu entendo que quem tá faltando o Amazonas nesse caso é o Ministério Público, então eu vou separar isso. Mas eu entendo que o Wilson tá fazendo feijão com arroz básico, tá viajando, viajou o mundo em busca de recursos, isso é uma coisa importante porque a Amazônia é uma marca mundial, o mundo inteiro conhece a gente, o mundo inteiro quer investir, então tem que fazer isso mesmo. Funcionalismo tá em dia, a folha, há alguns anos isso acontece efetivamente na Amazônia, mas no passado já houve isso, então poderia ter havido uma tragédia que não houve. Quando ele entrou na política, eles não conheciam, ele era um comunicador fazendo política, ele se tornou um político, esse mérito ele tem, ele estudou, ele entende como funciona a dinâmica, tem uma relação muito umbilical com a Assembleia Legislativa, tem o Tribunal de Contas do Amazonas também, com uma boa relação. Então, está fazendo feijão com arroz direito. Pode melhorar sempre, tem muito para melhorar, mas, no mais, acho que está fazendo um feijão com arroz bem feito. Quanto ao David Almeida, a sensação que eu tenho conversando com alguns vereadores é que ele está fazendo de tudo para perder a eleição, ele não se define em que pé ele está, ele tenta agradar Bolsonaro, tenta não desagradar a esquerda, mas ele tem ações muito mais radicais, conservadoras. A base dele é muito confusa, a Câmara Municipal, além desse incidente que eu citei de votarem errado, perderam a eleição para presidente da Câmara lá, o Caio André não é um aliado do Davi, o Caio André é um aliado do Wilson Lima e isso é um recado muito forte no processo político. Então, o Davi está seguindo a receita de agora na reta final, no último ano, ele vai inaugurar a obra para todo lado. Ótimo, que bom, a gente precisa de obras, agora eu não sei se os tempos são os mesmos, isso funcionava em 1990, se vai funcionar em 2024, eu não tenho certeza. O tempo vai dizer.
COMUN – Você acredita que o bolsanarismo ainda terá muita força em 2024?
Está longe de ser a força que foi em 2020 e está longe de ser o que seria se o Bolsonaro tivesse vencido a eleição. Por exemplo, o principal nome do bolsonarismo aqui no Amazonas é o Menezes. O Menezes não tem partido para ser candidato, o Alberto Neto está fazendo de tudo para expulsá-lo do PL. Já conseguiu, a justiça mandou voltar, mas na hora que tiver que decidir o PL, se fosse no cenário de hoje, o PL decidiria pelo Alberto Neto e o Menezes vai ser candidato por onde? Então, eles perderam muita força. A própria filha do Menezes, que é deputada, que está fazendo um mandato extremamente apagado, ressuscitando pautas espantadas, o que são pautas espantadas? São aquelas pautas que eles levantam porque eles não têm o que falar. Eu não sei, eu nunca vi a Débora Menezes falando de economia. Eu não vi um PL da Débora Menezes falando do delinquente do Flávio Bolsonaro dizendo agora que a Zona é tratada como privilégio, que a Constituição determina que ela tem que ser, porque senão, não vai gerar emprego. Eu não vi uma palavra dela, mas aí ela agora presta um projeto de lei para proibir a obrigatoriedade de vacinação de crianças. É uma limitação intelectual e eles estão limitados a isso. Eles vão morrer abraçados a essa pauta espantalha, mas não devem ser subestimados. Eles não têm a força que já tiveram e não têm uma fração da força que teriam se o Bolsonaro tivesse ganho a eleição, mas eles ainda têm uma força e isso tem que ser enxergado. A gente deve ter trabalho contra eles em organização, em estratégia nas situações das eleições? A gente já tinha que estar trabalhando, porque eles estão trabalhando nesse momento. Uma coisa que eu comento sempre nos artigos que eu escrevo, é que a gente tem dificuldade em fazer leituras de longo prazo. Por exemplo, em 2018 eles fizeram uma campanha com uma leitura de mundo à frente. A campanha de 2022 eles fizeram em 2018, por isso que ganharam, então, eles conseguiram enxergar na frente o poder das redes sociais, o poder das próprias fake news, que é um crime que a gente precisa combater de alguma forma. A direita teve esse feedback. Então, eles têm essa vantagem, eles estão trabalhando diariamente. A gente ainda não enxergou essa leitura de médio prazo e isso dá no que deu no Bolsonaro da vida, por exemplo.
Ouça entrevista na integra:
Por: Jonas Wesley
